Saudades do teto do meu antigo quarto, pintado com estrelas e luas feitas por meu pai e eu. Saudades de deitar no chão deste quarto, olhando quantas vezes o ventilador poderia girar enquanto eu contava as estrelas e luas pintadas. Saudades da velha cômoda que deixamos para trás, aquela com o vazio da vela queimada. Saudades da velha janela – nossa, ela era tão grande que, para meus pensamentos não fugirem, era preciso uma grade cor-de-rosa. Saudades do Tobi, do Pito, do Spike, do Tonel, do Loro e dos passarinhos que comiam pão de manhã. Saudades do quintal molhado, úmido. Saudades dos olhares curiosos dos padeiros, que quase nunca me viam. Saudades das cantorias noturnas e do cheiro de café com meia suja – não era café normal. Saudades do balanço sob medida. Saudades da piscina e das vitórias-régia feitas com folhas de parreira – ai, que coceira que me dá só de lembrar. Saudades de quando o mundo ia acabar e só me restava assistir ao Topa Tudo Por Dinheiro e a jogar Teddy Boy no meu Master System cor-de-rosa – dá pra acreditar? É porque vinha o jogo da Turma da Mônica. Saudades de dizer: “Ih, é a Sandra, mãe”, e correr pra arrumar os meus livros e me trancar no quarto; fingir que estava dormindo. Saudades de dormir até meio-dia no friozinho e na escuridão. Saudades de dormir coçando meu cabelo, para não passar mais uma noite insone imaginando questões pré-filosóficas – e isso lá é coisa de criança ficar pensando?! Saudades do cheiro de salgadinho e de cajuzinho. Saudades de me esconder debaixo da cama e enfiar o nariz no rodapé gelado – vai me dizer que você não curte cheiros bizarros? Saudades de quando juntávamos as camas e ficávamos até a alta madrugada dizendo coisas engraçadas pra ninguém dormir – “Vocês não têm sono não?” Saudades do cheiro de manga, que marcava o início do verão e quando, finalmente, podia fazer todos os exercícios que sobravam nos livros da escola. Saudades de quando eu não queria ir a nenhum aniversário, porque ninguém falava comigo. Saudades de quando me disseram que um pedaço de mármore era ovo de dinossauro. Saudades de quando fazia frio na escola grande. Saudades da feira de ciências – eu achava que era grande coisa. Saudades dos dilemas indumentários das festas juninas. Saudades de andar de bicicleta e patins no corredor e no quintal – eu tinha vergonha de cair. Saudades de brincar escondido de pular corda na rua do tio. Saudades de fazer saias com papel de presente e brincar de princesa. Saudades de estragar os cabelos das Barbies – “Nunca mais eu vou te dar essa boneca cara, ouviu?” Saudades.
Eu quero minha mãe.

No comments:
Post a Comment